Capa do álbum 'Falange canibal', de Lenine Jim Brandenburg ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Falange canibal, Lenine, 2002 ♪ Em março de 2002, quando lançou o terceiro álbum solo de estúdio, Falange canibal, Lenine explicou, em texto escrito para o encarte da edição em CD, que o título do disco era fruto de memória afetiva que o remetia a grupo de agitadores culturais que, no fim dos anos 1980, se reuniam semanalmente em bar do bairro carioca da Lapa para devorar música, poesia e teatro.

Lenine também frequentava esse efervescente point cultural carioca quando ainda era (quase) mais um na multidão de cantores e compositores em busca de visibilidade no vasto (mas de acesso restrito) mundo da música.

De todos os cantores e compositores projetados na música pop brasileira dos anos 1990, Osvaldo Lenine Macedo Pimentel foi o que demorou mais tempo para ser efetivamente notado pelo público, diferentemente dos contemporâneos Chico César (voz vinda da Paraíba) e Zeca Baleiro (de origem maranhense), ambos popularizados logo nos respectivos primeiros álbuns.

Lenine precisou esperar uma década para começar a ser (paulatinamente) ouvido.

Nascido no Recife (PE) em 2 de fevereiro de 1959, o artista pernambucano poderia perfeitamente ser considerado sucessor natural da geração de cantores e compositores nordestinos que migraram para o eixo Rio de Janeiro-São Paulo ao longo dos anos 1970.

Até porque Lenine sempre demonstrou a mesma habilidade para dar polimento pop contemporâneo a ritmos pernambucanos como frevo, maracatu, caboclinho e ciranda – como o antecessor Alceu Valença fazia, com a eletricidade do rock, nos anos 1970.

Contudo, ao lançar em 1983 o primeiro álbum, Baque solto, dividido com o parceiro conterrâneo Lula Queiroga, nada aconteceu.

Dez anos depois, em 1993, Olho de peixe – álbum de natureza acústica, dividido por Lenine com o percussionista Marcos Suzano – deu (alguma) visibilidade ao artista, evidenciando o requinte instrumental que moldava obra autoral em que os arranjos sempre se configuraram tão fundamentais quanto as composições em si. Com Olho de peixe, os críticos e o público mais antenado puderam vislumbrar a assinatura pessoal do violão e do cancioneiro de Lenine.

Foi nesse disco de 1993 que rugiu pela primeira vez Leão do Norte, caboclinho de Lenine – com letra de Paulo César Pinheiro – que seria amplificado na voz de Elba Ramalho em gravação de 1996. Foi pela voz de Elba, aliás, que Lenine começou a ter escoada a produção autoral em fase de entressafra.

Em 1989, seis anos após o então já esquecido LP Baque solto, a valente cantora paraibana fez A roda do tempo (Lenine e Bráulio Tavares) girar no álbum Popular brasileira.

Em 1991, Elba fez Feitiço (Lenine) entrar no disco Felicidade urgente.

Em 1992, Miragem do porto (Lenine e Bráulio Tavares) sobressaiu em outro álbum, Encanto, da cantora.

A abertura dessas janelas autorais na discografia de Elba foi importante para Lenine se manter em cena até ter a chance de – contratado pela gravadora BMG – gravar o primeiro álbum solo, O dia em que faremos contato, lançado em 1997.

Com capa que expôs imagem do fotógrafo norte-americano Jim Brandenburg, o álbum Falange canibal foi o terceiro título dessa nobre linhagem aberta com o álbum solo de 1997 – alavanca para que Lenine sedimentasse, enfim, a carreira com discos e shows feitos em intervalos regulares – e continuada dois anos depois com o álbum Na pressão (1999).

“Falange canibal é o encontro musical de muitos amigos, tendências e nações.

É fruto direto do exercício da troca, do tal 'livre trânsito', uma zona franca!”, conceituou Lenine no já mencionado texto do encarte da edição em CD do álbum lançado pela gravadora Sony BMG em 2002 e gravado no segundo semestre de 2001 na ponte Brasil-Estados Unidos.

O heterogêneo time de convidados do disco – formado pela banda norte-americana Living Colour, Velha Guarda da Mangueira, Eumir Deodato, a cantora norte-americana Ani DiFranco, o elenco do musical de teatro Cambaio (2001) e por músicos das bandas O Rappa e Skank, além de aparições virtuais (em gravações sampleadas) de Frejat, José Miguel Wisnik e do grupo russo Farlanders – evidenciou na prática o que Lenine explicou na teoria.

Foi como se, falando para o mundo do Rio de Janeiro (RJ), cidade para onde migrara na virada dos anos 1970 para a década de 1980, Lenine estivesse servindo banquete antropofágico em Falange canibal, álbum de título também evocativo das orgias tropicalistas feitas em 1922 e revividas no binômio 1967 / 1968 por novos baianos. Formatado com alta dose de eletrônica, concentrada nas programações do duo Vulgue Tostoi e de Tom Capone (1966 – 2004), produtor do disco ao lado de Mauro Manzoli e do próprio Lenine, o repertório inteiramente autoral do álbum Falange canibal encadeou 12 músicas compostas por Lenine a sós e com sete parceiros.

Da parceria com Carlos Rennó, Lenine apresentou Ecos do ão – reflexos de tensões urbanas – e Quadro-negro, música de fortes tintas sociais que ajudou a dar o tom por vezes corrosivo e sombrio da poesia do disco.

Já a parceria com Bráulio Tavares foi ampliada com Sonhei (composta com a adesão de Ivan Santos), Umbigo – faixa egoica de batida funkeada com versos em inglês cantados por Ani DiFranco e com o toque do piano elétrico (e do Hammond B-3) de Eumir Deodato – e Lavadeira do rio, música mais identificada com o cancioneiro anterior do compositor e, talvez por isso mesmo, já apresentada previamente por Elba Ramalho no álbum Flor da Paraíba (1998).

Músicos do Skank, o tecladista Henrique Portugal e o baterista Haroldo Ferretti tocaram na faixa e atuaram como coprodutores no registro de Lavadeira do rio por Lenine.

Da lavra do compositor com Dudu Falcão, parceiro habitual de Lenine na criação de baladas líricas moldadas para rádios e trilhas sonoras de novelas, apareceram na voz do autor duas canções já previamente lançadas em discos de cantoras.

Hit do álbum Falange canibal, até por ter sido incluída na trilha sonora da novela O clone (TV Globo, 2001 / 2002), a balada O silêncio das estrelas tinha sido apresentada (sem repercussão) há nove anos por Fátima Guedes no álbum Pra bom entendedor...

(1993).

Com Lenine, a balada ganhou cordas, o toque singular do violão do artista e um tom meio espacial que valorizou a melhor gravação de O silêncio das estrelas.

Já Nem o sol, nem a lua, nem eu tinha sido cedida no ano anterior para Maria Bethânia incluir a canção no álbum Maricotinha (2001).

Feita em tom suave, a abordagem de Lenine acentuou o lirismo da balada.

Da parceria com Sérgio Natureza, Lenine rebobinou Caribantu – música lançada pela cantora Miriam Maria no álbum Rosa fervida em mel (2000) – e Encantamento.

Samba calcado no toque do tambor, Caribantu harmonizou o canto do elenco do musical de teatro Cambaio com o coro da Velha Guarda da Mangueira, sem explorar todas as cores dos bambas da escola de samba verde-e-rosa.

Já Encantamento traduziu o espírito antropofágico do álbum Falange canibal com enxertos na faixa de trechos de gravações de José Miguel Wisnik, de Lenine com Frejat – Pagode russo (Luiz Gonzaga e João Silva, 1947) – e do grupo Farlanders.

Parceria inédita com Paulo César Pinheiro, No pano da jangada ecoou o moderno toque nordestino da obra de Lenine em gravação formatada somente com a voz e o batuque produzido com o percurtir dos pés do cantor.

Da parceria com Lula Queiroga, Lenine reapresentou Rosebud (O verbo e a verba), composição lançada no ano anterior por Queiroga no álbum Aboiando a vaca mecânica (2001).

Música funkeada da lavra solitária de Lenine, O homem dos olhos de raio X completou, com a batida do rock do grupo Living Colour, o repertório de Falange canibal, álbum cuja safra autoral resultou menos imponente no confronto com os cancioneiros dos dois discos anteriores do artista sem que isso tenha tornado o álbum menos vigoroso.

Até porque, como já dito, importa muito na obra de Lenine a forma como as músicas são modeladas no estúdio com a alquimia deste artista que, com os pés nas raízes da música pernambucana e os ouvido nas antenas que captam sinais do mundo, vem produzindo som universal com voracidade antropofágica.